Let go: detachment is everything. Turns out the life is a get-go. The highway without directions is the one way. It's the law.

11/03/2013

Análise Psicanalítica do Filme "As Aventuras de Pi"



“Poucos podem dizer que sobreviveram no mar, muito menos em companhia de um Tigre de Bengala...”

     Com essa frase encerra-se o filme “As Aventuras de Pi”, a história de um jovem que sobreviveu a uma viagem violenta pelo oceano em um bote. Mas ele não estava sozinho. Inicialmente, era acompanhado por um tigre, Richard Parker, um orangotango, uma hiena e uma zebra, sendo que, ao fim, apenas o tigre permaneceu vivo. O protagonista tem um curioso apreço por diversas religiões, de forma indiscriminada, apesar de deixar transparecer o seu sentimento especial pelo Cristianismo.
     O filme é repleto de simbolismos e significados. Já partindo ao essencial da trama, a viagem pelo mar, Pi carrega consigo sentimentos de fé, perda, desapego e compaixão. Sentimentos esses que são representados nos animais e na própria situação.
     A busca por si mesmo e a tentativa de dominar esses sentimentos, leva Pi, de um oceano turbulento, movido a tempestades, a uma ilha bela e desconhecida antes de trazê-lo de volta à civilização.

1)    Religiões


     Pi, logo no início do filme, aparece como um menino estrangeiro às crenças de sua própria família, pois, contrapunha-se à ciência a favor das religiões. Contrariando o seu pai, que alegava que “acreditar em muitas coisas é o mesmo que não acreditar em nada” e apesar da contradição, a personagem principal conseguia conciliar diversas religiões em sua vida. Isso representa uma confusão quanto à sua visão de realidade do mundo.

2)    Os animais
     
     Ao final do filme, os animais são revelados como as pessoas que acompanharam Pi por um período em sua viagem marítima. A Zebra tratava-se de um oriental tão dócil quanto o animal, que se propôs a ajudar o protagonista e sua família no momento em que vivenciaram uma situação violenta com o cozinheiro. Este se apresentou no bote como uma hiena, animal que representa por si só um sentimento traiçoeiro. O orangotango, pelo qual Pi demonstrava amor, proteção e confiança, era justamente a identidade de sua mãe.
     No desenrolar da história, a zebra (o oriental) é morta pela hiena (o cozinheiro). Com isso, sentimentos aversivos pelo último animal são despertados em Pi. Esses se revelam furiosamente quando a hiena mata o orangotango. O sentimento da perda ao presenciar a morte de sua mãe transforma-se num átimo em um ódio mortal, que se revela em forma de tigre, retirando, de uma vez, a hiena da história.
     Em decorrência, resta apenas a personagem, sua dor, sua culpa e sua fúria, ou seja, e o tigre.

3)    O Tigre

     O tigre destaca-se dos outros animais principalmente por ser o único a acompanhar o jovem Pi até o fim de sua jornada.
     Ao ter de se despedir de sua namorada (antes mesmo de embarcar no navio náufrago), perder a sua família, seus amigos e por último a sua mãe – o que restava de mais precioso. O rapaz teve de conviver apenas com a sua dor e com seu ódio. O relacionamento era conflituoso, havia momentos em que beirava a própria destruição, outros que os sentimentos serviram de estímulo. A convivência com esses sentimentos representados no tigre era quase impossível, ainda assim, Pi não conseguia findá-los. Dizia enxergar a alma do tigre quando mirava seus olhos. Não podia se livrar dele.
     O esgotamento por lidar com o animal - seus piores sentimentos - era frequente, até que conseguiu, enfim, domá-lo. Habituou-se à sensação de perda; desapegou-se, talvez, de seus antigos sentimentos e pôde ficar por um tempo em paz trazendo o tigre consigo em um oceano infindável.

4)    Mar

      O oceano infinito é a própria solidão, o próprio encontro com si mesmo. A perda da civilização é a fuga da realidade.
      Estar só é extremamente doloroso. O choque de encontrar-se em meio a tanta imensidão e descobrir-se acompanhado por sentimentos jamais pensados levaram Pi a um estado inatingivelmente distante e ao próprio esmorecimento.
      Como um ciclo de luto que chega a seu ápice, viu-se cara a cara com a morte. Não apenas dele mesmo, mas do próprio tigre que carregou por tanto tempo consigo, fazendo dele o seu refúgio, a sua motivação – por mais contraditório que seja fazer da própria dor um ponto de apoio para continuar vivendo, às vezes o sentimento aparenta ser a única coisa que resta.

5)    O Abandono do Tigre e a Chegada à Ilha

     Passado algum tempo imerso na solidão oceânica, acompanhado dos sentimentos mais violentos e profundos possíveis, que só poderiam ser representados com tamanha perfeição por um tigre de bengala – belo, furioso, surpreendente, misterioso e temido –, Pi viu o animal deixá-lo ao chegar a uma ilha inesperada.
     Apesar da dor que surgiu com a partida do tigre, um novo ciclo iniciava-se diante de seus olhos. Nessa ilha ele pôde finalmente repousar com leveza. A solidão já não era assustadora, como fora outrora – perdido no mar. Os sentimentos que lhe causaram tanto mal desapareceram com o tigre. Então, depois de uma jornada que parecia não ter fim, Pi encontrou-se de novo no convívio de uma civilização.

6)    Considerações Finais

     Dificilmente existirá uma única pessoa que jamais tenha se deparado com os olhos do Tigre. Esse filme retrata de forma metafórica e bela os principais sentimentos existentes no que entendemos por luto. A perda, a angústia, a sensação de uma solidão infinita que chega a fazer com que nos identifiquemos com a imensidão do mar. Aliás, o que melhor representa a solidão – e a solitude – que não o próprio mar?
     O tigre desempenhou perfeitamente o papel dos sentimentos que sempre desejam evitar, que são furiosos e, essencialmente, bonitos.

20 comentários:

  1. Nossa. Adorei sua análise. Parabéns.

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  2. e a ilha carnivora? sera q ele cometeu canibalismo? fiquei com essa ideia

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  3. Sim ele cometeu canibalismo, repare no formato da ilha, de um homem, na hora em que ele encontra o dente em sua mão percebe o que estava fazendo e toma a decisão de voltar a civilização ou morrer no mar, so não entendi ainda os suricatos....

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    1. talvez fosse um corpo apodrecido cheio de vermes.

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    2. Os suricatos são o que restou ainda da inocência de Pi, uma vez que ele ficasse na ilha o lado tenebroso dele (Tigre) ia comer todos os suricatos (Inocência, boas lembranças) ele ia definhar até a morte. Ele tinha que continuar lutando, se ficasse na ilha ia perecer.

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  4. Vinha procurando uma analise para este instigante filme. Encontrei a sua, li por completo, incluindo os comentários. Parabéns, mesmo que não seja a analise absoluta, correta, ela faz muito sentido. Me fez pensar sobre essa ideia de luto, solidão e conflitos. Obrigado.

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  5. Amei o filme e passei a gostar muito mais de er a analise e os comentários. Parabéns!

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  6. Interessante é ouvir o protagonista Pi, dizer no filme que o que aconteceu é fato e não precisa de significado!!
    Não concordo com a análise!!

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  7. Já li varias analises e achei essa a mais coerente, parabéns!!!

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  8. Na primeira vez que assisti ao filme compreendi que PI acredita e narra a historia do Tigre (e demais animais) como forma de suportar o canibalismo praticado por ele. No filme ele conta a primeira história (que é pouco real) e uma segunda história. Como acreditar totalmente na segunda história? É ele quem conta os fatos, logo sua imparcialidade está comprometida. Na minha opinião ele ainda esconde algo muito pior de superar: o canibalismo no corpo da própria mãe. Na versão dele o cozinheiro matou a mãe e jogou o corpo para os tubarões comerem. PI fala que o cozinheiro era engenhoso, pois matou o vegetariano para usá-lo como alimento. Ora, depois de obter mais “alimento” jogá-o para os tubarões? Há uma contradição, ele está mentindo nesse ponto. O momento em que PI comete canibalismo no corpo da própria mãe está expresso quando ele chega na ilha misteriosa(flutuante). O que ele faz quando pisa na ilha? Começa a devorá-la. Na ilha há peixes podres (partes do corpo em decomposição) e milhares de suricatas se alimentando desses “peixes”: os suricatas são os vermes. Ele encontra um dente na ilha e diz que a “ilha é canibal”. PI fala que a ilha a noite é altamente tóxica (o corpo humano em decomposição é altamente tóxico), e tem que abandoná-la. Ao deixar a ilha, ele a observa do seu barco, e toda a ilha toma a forma de um corpo humano feminino flutuando(isso é bem claro no filme).
    Penso que as interpretações são muitas, mas a ideia central do filme é o canibalismo em situação extrema de sobrevivência e o conflito ético-moral que isso pode provocar no homem, sendo a religião-fé uma forma de superação.

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    1. Sua interpretação da história é muito interessante. Bem, lembro-me que Pi em dado momento fala ao escritor que o visitara "eu te dei duas versões", mas isso não quer dizer necessariamente que uma delas represente fielmente o que aconteceu.

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    2. Acredito que não seja uma forma de superar somente o canibalismo, mas sim uma forma de superar tudo que ele viveu. Pi viu sua mãe sendo assassinada brutalmente pelo cozinheiro que já havia assassinado o oriental. No final, eu acho que fica claro que Deus é só uma forma mais suave de aceitar a realidade.

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  9. Boa análise, é um filme emocionante, nos faz refletir. Bela mensagem.

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  10. Muito boa sua análise

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  11. Gostei da sua interpretação, mas acho que você deixou passar a idéia central da aventura. O escritor se interessou pela estória porque seu interlocutor disse que ao escuta-la ele iria acreditar em Deus, e a maioria das pessoas acredita que a sobrevivencia de Pi diante de tantos perigos seria a prova da intervenção divina, porém já no começo da narrativa a religião aparece como tema principal e ao seu final o protagonista pergunta ao escritor qual das versões ele preferia e ao obter "a estória do tigre" como resposta, ele conclui, assim é Deus. Para mim ficou claro, a intenção do autor de demonstrar que é melhor acreditar em um Deus do que na dura realidade.

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    1. Isso aí Gilmar. Bom ver, finalmente, ue alguém entendeu a mensagem do filme,rs

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  12. Filme adorável, uma verdadeira reflexão sobre os preceitos éticos e morais na vida de um homem. Tudo isso nos deixa confiantes de que sempre existirá uma saída e um conforto em todas as situações as quais nos deparamos em nosso oceano que seria nada mais do que nossa vida. Nunca podemos desistir, sempre haverá uma ilha onde deixaremos nossos conflitos e buscaremos novas saídas.

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